“QUER QUE EU FALE O SEU NOME?” – DISSE DEUS

por M.M, leitor do blog, interior de São Paulo

Era um domingo do ano de 2009. Não me lembro qual mês. Tinha 26 anos. Estava sentado no banco de um terminal de transporte urbano da minha cidade. Teria que pegar o ônibus que seguiria para o meu bairro. Porém eu não tinha forças de entrar dentro do ônibus. Já haviam estacionado dois veículos e partido, sem que eu conseguisse nem ao menos me levantar do banco.

“Senhor, recolhe a minha alma”, era o que eu pedia em silêncio.

Eu estava retornando de uma cidade da região metropolitana de São Paulo. Havia conhecido um moço pela internet e fui visita-lo. Passamos o fim de semana juntos. Ele vivia os mesmos conflitos que eu. Compartilhávamos da mesma guerra, identidade sexual versus identidade religiosa.  Porém chegou-se o domingo, dia de voltar para a casa. E durante a viagem de volta eu me autocondenava. E não tinha coragem de chegar em casa e encarar minha família. Eu tinha a impressão de que na minha testa estava tatuado: ‘pecador’.
Não foi a primeira vez que tinha conhecido alguém e ido de encontro, porém, toda vez que isso acontecia era um pedaço de mim que ficava pelo caminho.

“Meu Deus, preciso chegar em casa, dai-me forças!”, e uma lágrima teimou em rolar na minha face. Abaixei a cabeça quando percebi que do meu lado sentou-se um senhor. Eu não queria que ninguém me visse chorando. E de repente aquele senhor chamou-me a atenção:
– moço?! – chamou-me.

Eu hesitei em olhar, mas ele chamou pela segunda vez. Quando levantei a cabeça vi que se tratava de um morador de rua ao observar sua aparência. E sem falar nada, apenar olhei para ele dando-lhe a deixa para falar o que queria de mim.

– Sabe moço, Deus condena o pecado, mas ele ama o pecador. – falou com um tom suave e finalizou com um sorriso.

– Deus abençoe! – foi somente o que consegui falar. Nisto encostou o terceiro ônibus com destino ao meu bairro, então de súbito levantei e entrei no veículo. Aquele senhor continuou ali sentado. Quando o ônibus começou a se movimentar, eu pude avistar aquele homem levantar se caminhar sentido a saída do terminal.

Isso me deu forças para chegar em casa. Inventei algumas mentiras para minha família, como de praxe, tais como: os irmãos mandaram saudar, o culto lá estava glorioso, a igreja é muito bonita. Não tive forças de congregar aquela semana. Inventei algumas desculpas, eu já estava ficando bom nisso, em mentir. A minha vida era uma mentira. E este também era um dos meus motivos em ficar tentando Deus para recolher a minha alma: “Senhor, minha vida é uma mentira, não consigo continuar assim, tira meu folego de vida.”.

Passei a semana pedindo a morte. Me estapeava embaixo do chuveiro. Mas tomava o cuidado em não deixar ninguém perceber o que se passava comigo. Quando algum membro da família aparecia na minha frente eu sorria, brincava, puxava assunto, fazia alguma piada. Eu não tinha a liberdade nem de curtir a minha dor, pois o que eu justificaria caso perguntassem o motivo da minha tristeza?

A semana se passou, e no domingo seguinte, pela manhã, uma amiga companheira de congregar me ligou. Pediu para que eu a acompanhasse para congregar numa reunião de jovens numa cidade vizinha a nossa. O culto era a tarde, após o almoço. Ela disse que estava muito provada com uma situação familiar, e que precisava de ouvir Deus falar com ela. Eu conhecia bem a luta dela, e para motivá-la e ajuda-la, eu fui congregar com ela. Eu não me sentia digno de entrar na casa de Deus, mas eu precisava ir por minha amiga. Ela também não sabia da minha condição sexual. Ninguém sabia.

Fomos de ônibus, o trajeto era longo. Tínhamos que pegar três ônibus para chegar na igreja. Fui durante todo o caminho brincando com ela. Tentando fazê-la sorrir, e intimamente eu continuava pedindo a morte, e também pedi para Deus me perdoar por entrar dentro de Sua casa. Realmente eu não me sentia digno de pisar os pés dentro do templo.

Quando chegamos, eu não consegui fazer minha oração de comunhão. Sentei no ultimo banco. Aquele dia nem me dei o trabalho de colocar terno. Fui de calça jeans e camiseta.
A igreja estava lotada. Passei despercebido pelos auxiliares de jovens, e graças a Deus não me entregaram o recitativo.

O cooperador de jovens subiu no púlpito, e antes de abrir a reunião proferiu as seguintes palavras:

– Mocidade, vamos redobrar a nossa comunhão pois nesta tarde o espírito da morte entrou aqui e está rodeando um jovem. Vamos rogar a Deus para que ele mande este espírito embora.

Eu escutei aquelas palavras, até me identifiquei, mas não sentia digno de estar ali dentro então seria muita presunção minha imaginar que eu seria o tal jovem.

O culto foi transcorrendo. A comunhão estava linda, mas eu observava como espectador. Não estava sentindo nada, e também não estava me permitindo sentir nada. Na primeira oração o cooperador de jovens alçou a voz em clamor e repreendeu o espírito da morte. A oração foi linda. Mas eu resistia bravamente.

Vieram os demais hinos, os recitativos, os testemunhos. Um casal de namorados se despediu. E logo o irmão abriu a liberdade para que Deus revelasse Sua Palavra.

Deus visitava Sua igreja. Eu não estava me sentindo a vontade. Não via a hora que o culto terminasse.

O cooperador de jovens então chegou no microfone e disse que Deus havia mostrado a Palavra em 1 de Josué, cujo título era: ‘Um anjo fala com Josué e anima-o’.

E após a leitura Deus tomou a boca do pregador e começou a falar com sua igreja:

– “Meu filho, porquê estás desanimado? Porque queres morrer? Tenho tantas coisas para realizar em sua vida. A sua jornada é longa”.

Eu confesso que conforme Deus ia falando, fui sentindo-me intimidado pela pregação. Mas não aceitava que era comigo que Deus falava. Porém, em alguns momentos mentalmente eu ia respondendo e debatendo conforme o que era proferido pela boca do irmão.

“Tu sabes Senhor, porque quero que Tu me recolhe. Sabes que não pedi para ser assim, e que eu não sei viver nem na tua graça e nem no mundo”.

E Deus respondia:

– Eu te chamei nesta graça, eu conheço os teus passos, eu vi teus ossos se formarem no ventre da sua mãe. Eu te fiz assim, exatamente como és. Eu te amo do jeito que eu te fiz. E não está no tempo de te levar para o meu reino de glória ainda.
Eu estava assustado. Por mais que eu sabia que Deus falava na igreja através da pregação da Palavra, eu não aceitava que ele estivesse falando comigo. Embora estávamos num diálogo. Foi então que Deus disse:

– Você não está acreditando que é contigo que falo neste momento, não é mesmo?

-Senhor, não acho que esteja falando comigo. Deve ser com algum moço que te sirva diligentemente, e não eu. Não é comigo que está falando.

– Você quer que eu fale o seu nome? – Disse Deus por intermédio do cooperador de jovens, e com autoridade intimidadora.

– Sim, se é comigo que o Senhor está falando então pode falar meu nome. – desafiei.

E neste momento o cooperador encheu os pulmões de ar e gritou o meu nome no microfone, quase que separando as sílabas.

Neste momento Deus visitou a minha alma. Senti seu amor. E o amor de Deus é irresistível. Senti que ele me amou mesmo, e que me ama.

O culto findou numa festa espiritual. Toda a igreja jubilando o amor do Eterno.

Minha amiga veio me perguntar porque eu havia pedido a morte, e porque eu não tinha conversado com ela. Eu disse que era apenas uma provação espiritual, mas que ali Deus já havia me libertado.

Deus ter falado comigo face a face ainda não me trouxe naquela época a aceitação em relação a minha sexualidade. Mas foi o início de um processo de auto aceitação. Foi só a ponta do Iceberg. Mas foi importante para eu começar a enxergar Deus muito além das escrituras e muito além dos ensinamentos e dogmas que me foram apresentados, que limitavam até então Deus a um conjunto de regras. E quando realmente examinamos as escrituras podemos ver que Deus quebra regras para não perder uma alma.

Hoje já consigo me aceitar como homossexual. Compreendi também as palavras do mendigo sobre Deus amar o pecador, pois Ele vê todos nós como sendo um. E o pecado que cometia não estava na minha orientação sexual ou em sua prática, mas sim na amargura espiritual, no desejo pela morte mais a tortura sofrida ao mentir para eu mesmo.

A comunidade da igreja a qual frequento não sabem de mim. Meus familiares, não sabem, talvez imaginam, e talvez sabem e não querem enxergar. Somente consegui me abrir com minha irmã. Ela me abraçou e me apoiou. Vou abrir a porta do armário para os demais quando eu estiver vivendo um relacionamento homoafetivo que mereça esta interação familiar.

Me sinto muito em paz. Congrego, mas não com muita frequência. E sinto que meu relacionamento com Deus está muito mais sólido atualmente do que quando eu vivia em conflitos. Sou grato à Deus pelo dom da vida. Viver é maravilhoso.

8 thoughts on ““QUER QUE EU FALE O SEU NOME?” – DISSE DEUS

  1. Lindo testemunho!
    Por muito tempo lutei contra minha natureza, sofria pelo simples fato de sentir atrações por homem, todas as noites chorava e clamava por uma liberação que nunca chegava, e eu não entendia o motivo de não ser atendido se o meu desejo era melhor servir a Deus. E toda vez que eu me sentia um trapo, Deus fazia algum movimento que demonstrava estar na minha vida. Também já pedi a morte, já pensei em abreviar a vida, mas não foi assim que aconteceu.
    Com o tempo passei a aceitar que de fato eu era assim, mas deveria manter o celibato.. O tempo passou, eu sempre fui um bom filho, um bom cristão, um bom aluno, um bom funcionário, e também queria ser um bom namorado.
    Mas me faltava coragem para me relacionar, a religiosidade era muito forte na minha vida e eu tinha medo de “pecar de morte”, até que um dia, cansado dessa luta, decidi que “pecaria” de veze acabaria com essa tortura psicológica. Conheci um rapaz com que falava pela internet, ele sabia que eu não tinha experiência nem com homem e nem mulheres, ele estava me respeitando, mas eu estava determinado a ir adiante, naquele dia aconteceu o que eu tanto tinha vontade, namoramos durante 6 meses, logo engatei num namoro que durou quase 3 anos, depois em outro de 2 anos, e hoje estou casado a 4 anos.
    Já estou em paz com minha natureza, me relaciono com Deus em minhas orações, às vezes estou na igreja, mas não crio vínculos pra que ninguém pergunte pela “noiva” que colocou uma aliança de ouro na minha mão direita… Apesar de sermos casados, usamos a aliança na mão direita, pois, não casamos no papel.

  2. Em visita ao site, vi quanto è grande o amor para o pecador, muito lindo o testemunho, mas meus queridos tenho passado por tudo isso e mais um pouco, e nao consigo ir avante, sou casado e gostaria muito descrever a minha historia, mas preciso de ajuda…. Deus vos abençoe

  3. Comigo não foi diferente! Sofri anos a fio… Era auxiliar de jovens e menores! Mas, sofri tanto que acabei saindo da igreja!
    Levei um tempo para me reerguer! Porém, foi possível!
    Obrigado por esse espaço incrível! O testemunho anônimo é lindo!

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